sábado, 2 de junho de 2012

O conto de fadas invertido.

A garotinha costumava brincar de barquinho na bacia com água, costumava brincar de olhar pro céu e imaginar que as nuvens eram paraísos mais próximos, gostava de deitar em sua cama e pensar em seu futuro na palma da mão, gostava de achar que o mundo ainda era um conto de fadas, ela gostava... Gostava do cheiro que a vida tinha pra ela. 
A vida passou, o conto de fadas não foi tão encantado quanto imaginava. 
Na história que contavam-lhe, existia um príncipe que sempre resgatava a mocinha indefesa, a história que contavam era sonho, era magia, a história que contavam era de sonho e esperança, eram coisas boas... Mesmo já entendendo o reino do mal em outras meras histórias. 
Teve que substituir os contos de fadas por palavras um pouco mais realistas, e o desejo que tanto tinha de nas nuvens pisar foi substituído pelo desejo sobrevivência... Tentar sobreviver, em seu próprio campo de vivência ou seja em terra firme. 
Às vezes parava e pensava: 
- Como assim o que aconteceu, onde está a inocência que tanto acreditei? 
Mas as perguntas eram ocas, sem respostas.  
Pra tudo que ela olhava, não havia mais vida, não havia mais sonhos, e a lei do mais forte era a que persistia. 
Olhava pros cantos, via as pessoas vivendo monotonamente, com meros sorrisos e cumprimentos afortunados, olhava os olhos ocos das crianças que hoje já não sabiam mais o que era a infância, olhava os amores perdidos, quebrados, partidos, traídos, olhava a sujeira, olhava a desesperança, olhava o dia - a dia ... e nunca mais soube, o que era alegria. 
Seus pais lhe pegavam no quarto conversando com os livros, e olhando a vidraça da janela embaçar em dias de frio e neblina, pegava a filha se isolando e sentindo uma depressão impressionante ... que não necessitava de mais nada, a não ser aquele canto. Os pais haviam desistido do conto de fadas lhe contar, pois mesmo a esperança infinita da linda filha que tinham conquistado, foi arrancada, por acordar é perceber que nada nunca foi, como devia ser.
A menina ganhou o silêncio, a incompreensão, e seus sonhos, mergulhou no mais absoluto sigilo. Andavas pelas ruas, a procura do nunca iria encontrar, pensava e pensava e nunca, nada achava.   
Ela realmente entendeu que a infância ficaria apenas como lembrança, e que entendia o jogo do conto de fadas serem contados : 
- São pequenos paraísos inalcançados , sendo preparados para serem tomados de suas mãos, quando a tudo descobrir ... até você descobrir como tudo realmente funciona. 


E assim ela se perdia ... não em "felizes para sempre" como lhe contavam em sua infância.  Mas nesse mundo, que já não existia paz ... que já não existia muito.  



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